O santo dos peregrinos, andarilhos e viajantes.
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Chegada à "Comune" de
Montegaldella (Vicenza) |
Montegaldella
(VI), 15 de junho de 2007. Deixamos o hotel pelas 9h da manhã. Sol alto.
Mormaço. Nada de vento, nem uma folha se mexendo. No pátio da “Comune di
Montegaldella1”, consegui uma sombra de
árvore para deixar o carro estacionado. Minha mãe, como de costume, preferiu
ficar esperando no carro. O atendente, muito atencioso, quebrou o protocolo e permitiu
que eu manuseasse o livro “Registro di Popolazione2”, ao qual prefiro
chamar de “livro de família”. Minha opinião, esse livro é a fonte “filé mignon”
dos pesquisadores que procuram raízes na Itália (não sei se outros países tem
algo semelhante).
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Comune di
Montegaldella, Provincia di Vicenza, Regione Veneto |
Comecei a folhá-lo
e, rapidamente, encontrei o registro da família de Valentino Caldieraro: Via
Camorra, casa n. 74, data de ingresso na “comune” em 11 de novembro de 1881,
data da saída da “comune” em 11 de novembro de 1887... Em seguida, o registro
da família de Giovanni Caldieraro: Via Cittadella, casa n. 167 e 168, data de
ingresso na “comune” em 11 de novembro de 1881, data da saída da “comune” em 12
de dezembro de 1884 com destino ao Rio de Janeiro... Por fim, o da família de
Matteo Caldieraro: Via Bufa al Ferro, casa n. 196, ingresso (de Matteo) na
“comune” em 11 de novembro de 1882, data de ingresso (de Francesco Caldieraro,
filho de Matteo) na “comune” em 11 de novembro de 1883...
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Detalhe do “Livro de
Família” de Montegaldella, 1ª página da família de Matteo Caldieraro |
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Detalhe do “Livro de
Família” de Montegaldella, 2ª página da família de Matteo Caldieraro |
Opa... Mas, que
palhaçada é essa? Bateu a preguiça, e o cara do registro resolveu preencher
tudo com a mesma data: 11 de novembro? Ou seria algum código, ou sei lá o quê? Voltei
à sala onde ficava o atendente (Sr. Bruno, se não me engano) e perguntei a ele
o que era aquilo; a “síndrome do 11/11”?? Ele deu uma boa gargalhada e disse:
“Mais um brasileiro que não conhece São Martinho!”.
Foi então que me
contou a história, ou melhor, a Lenda do “Verão de São Martinho”, à qual
reproduzo abaixo. Encontrei num site italiano3, e tentei (com
ajuda do Google Tradutor) traduzir para o português.
São Martinho (San Martin) nasceu em Tours,
França, por volta de 316-317 d. C., e foi um dos primeiros santos não-mártir da
Igreja Católica. Legionário romano na região da Gália, foi lá que viveu a
experiência que mudou sua vida para sempre.
Diz a lenda que Martinho, numa noite fria de novembro,
enquanto inspecionava os postos de guarda, encontrou um mendigo vestindo apenas
alguns trapos. Então, o nobre Martino sentiu pena do pobre rapaz e ofereceu-lhe
metade da sua quente capa militar, cortando-a com sua espada. Naquela noite, Martinho
sonhou que Jesus, vestindo sua capa, dizia aos “soldados-anjos” que Martin o havia
protegido com sua capa. Ao amanhecer, ainda impressionado com o sonho, Martinho
encontrou sua capa... intacta, inteira.
Martinho, após a experiência mística, converteu-se ao
cristianismo, foi batizado e, depois de vinte anos de carreira militar,
tornou-se bispo de Tours, onde continuou humildemente, até sua morte, seu
trabalho pastoral. Sua capa milagrosa tornou-se uma relíquia, e foi preservada
pelos reis merovíngios.
A lenda de São Martinho tem inspirado a muitos, a
identificarem como o “verão de São Martinho”, a ocorrência (repetida ao longo
dos anos) de tempo bom, nos dez primeiros dias de novembro. Segundo a lenda, é a
vontade de Deus para lembrar o nobre gesto do santo.
Ok, seu Bruno...
Mas, e o que isso tudo tem a ver com os repetidos registros de chegadas e
partidas em 11 de novembro? Então ele me explicou que, por ser uma época de
tempo bom, após o final das colheitas e de seus processamentos, se convencionou
tacitamente, ao longo dos séculos XVIII e XIX, naquela região (somente lá?),
que 11 de novembro (data que se celebra a morte de São Martinho) seria um dia
para “mudanças”. Mudanças de moradia, de patrão, de oportunidades. Nesse dia,
as pessoas estavam “livres” para ir embora, para sair de seu emprego, para demitir,
para contratar, para voltar, para tentar nova oportunidade, novo emprego, nova
vida... O dono da terra podia “demitir”, o empregado podia “largar fora” sem
dar qualquer explicação... Dia de viajar, de peregrinar, de andar...
Interessante, não?
Pois eu achei... Até a próxima!
E que São Martinho
nos proteja em nossas andanças...
Notas:
1.Na Itália, dá-se o nome de “Comune”
ao prédio público onde se reúne diversos órgãos da administração municipal,
tais como registros civis, secretarias, bibliotecas, etc.
2.Nesse livro, instituído por Decreto
Real em 31 de dezembro de 1864, se registram, a cada duas folhas, diversas
informações sobre as famílias (ou núcleos familiares) residentes em cada casa
da “comune” (município): sobrenome, nome (ambos conforme registro/batizado),
filiação, sexo, parentesco (com o/a “cabeça de família), profissão, local de
nascimento, data de nascimento, estado civil, data de chegada (à “comune”),
procedência, data de saída, destino...
3. http://balbruno.altervista.org/index-1622.html
Observação: Todas as imagens pertencem ao arquivo
pessoal do autor.